
A herança ancestral vive quando os saberes passam de mão em mão, do mais velho para o mais novo, e quando as crianças aprendem a olhar para o próprio passado com orgulho. É com essa proposta que nasce o projeto Chão de Saberes, lançado no último sábado, 11, pela comunidade quilombola Poço Dantas, em Almas Tocantins, cidade localizada a aproximadamente 250 km de Palmas.
Apresentações de sussia e de folia, realizadas por 14 crianças da comunidade, marcaram o início do projeto. Vestidas de vermelho e branco, as crianças reproduziram no terreiro da sede do quilombo o tradicional ritual da folia do divino espírito santo. O pequeno alferes conduzia a bandeira vermelha ornada de fitas coloridas e fazia a vênia no centro da roda formada pelos membros da comunidade.
Em fila, os foliões seguiam o alferes tocando os instrumentos tradicionais – caixa e tambor, pandeiro, viola e violão. Também entoavam cânticos católicos que fazem parte das folias, em sincronia com as rodas e benditos das manifestações dos povos negros. É nesta época do ano, inclusive, que as folias do sudeste do Estado, em localidades como Almas e Natividade, percorrem o sertão cumprindo o ritual secular.
Ainda dentro da programação, as crianças mostraram o gingado nos pés com a dança da sussia. Com longas saias rodadas as meninas giraram no terreiro, e junto com os meninos dançaram e cantaram os cânticos que os mais velhos ensinaram. A comunidade acompanhava na voz e nas palmas, visivelmente emocionados com a desenvoltura das crianças.
As apresentações aconteceram durante reunião ordinária de moradores do quilombo. Na ocasião, a pedagoga Maria Lívia Rodrigues Valadares, mestre em Educação e doutoranda em Ciências do Ambiente pela Universidade Federal do Tocantins (UFT), idealizadora da ação, falou sobre o projeto. "O que queremos é que as crianças vivam a cultura do quilombo no dia a dia, transformando o terreiro e a roça em lugares de aprender. Aqui, o saber não vem apenas de páginas distantes, mas nasce do respeito por quem veio antes e do orgulho de pisar e cuidar deste chão", explicou a educadora, que coordena o projeto juntamente com a presidente da associação da comunidade, Miguelanes Crisóstomo.
Além da folia e da sussia, a iniciativa prevê também a realização de outras ações que integram a tradição oral, a prática e o letramento racial. Para isso, serão promovidas atividades que contribuam para o resgate de memórias, a exemplo de encontros das crianças com os anciãos para a partilha de histórias ancestrais; rodas de leitura com literatura infantil negra e quilombola; e oficinas de instrumentos percussivos como tambores e caixas.
O projeto alcança as crianças quilombolas que vivem na própria comunidade, portanto no meio rural, ou aquelas membros da comunidade que vivem nas cidades, ou seja, que estejam no contexto urbano. "O objetivo é fortalecer a identidade quilombola e o sentimento de pertencimento das crianças da comunidade, utilizando a memória dos anciãos, a literatura especializada e o território como eixos centrais para a preservação cultural e o protagonismo infantil", concluiu.
Informações: Val Rodrigues - jornalista quilombola membro da comunidade Poço Dantas.