
“A cultura é a mãe de todas as nações”. A frase dita por Gilberto Gil durante sua posse como ministro da Cultura, em 2003, traduz a ideia de que a identidade, os valores, os costumes e as tradições de um povo nascem e se sustentam pela transmissão de saberes entre gerações.
Neste Dia das Mães, comemorado em 10 de maio, a Secretaria de Estado da Cultura presta homenagem às mulheres que, por meio do cuidado, da escuta e da transmissão de saberes, ajudam a preservar a memória coletiva do Tocantins. Mães biológicas, mães do coração, mestras, educadoras, artistas, artesãs e fazedoras de cultura que, em diferentes territórios, mantêm vivas as práticas, as histórias e que repassam às novas gerações conhecimentos herdados de seus antepassados.
O secretário de Estado da Cultura, Adolfo Bezerra, reconhece na maternidade a primeira e mais importante forma de transmissão cultural. “Celebrar o Dia das Mães é, para nós, celebrar a origem de toda a nossa identidade. Afinal, a cultura começa no colo, nas primeiras histórias contadas e nas tradições que passam de mãe para filho. A mãe é a nossa primeira mestra e a maior incentivadora da criatividade. Hoje, homenageamos aquelas que fazem do cuidado a sua maior obra de arte e que nutrem, com amor e força, a alma do nosso povo. Em nome da Secretaria de Cultura, meu mais sincero agradecimento e um feliz Dia das Mães a todas!”, afirma o secretário.
Para representar as muitas mulheres tocantinenses que unem maternidade, memória e cultura, a Secult destaca as trajetórias de Felisberta Pereira da Silva, conhecida como Dona Feliz, e de Verônica Tavares de Albuquerque. Em comum, elas carregam o compromisso de repassar aprendizados, preservar tradições e formar novas gerações a partir de suas vivências culturais.
Carinhosamente conhecida como Dona Feliz, Felisberta Pereira da Silva é matriarca, líder e coordenadora do Grupo de Suça Mãe Ana, da cidade de Natividade. Reconhecida como uma das principais guardiãs da suça no Tocantins, ela atua há décadas na preservação dessa manifestação cultural de matriz afro-brasileira, tradicionalmente presente nos Festejos do Divino Espírito Santo.
Benzedeira e Mestra Suceira, dona Felisberta conta que a criação do grupo nasceu da preocupação com o enfraquecimento da tradição em Natividade. “A ideia de criar o grupo surgiu quando percebemos que a suça, em Natividade, estava acabando. A manifestação, que era tocada na Festa do Divino, estava perdendo espaço e as pessoas estavam abandonando essa tradição. Em 2000, veio a vontade de criar um grupo que resgatasse a suça e não deixasse morrer essa cultura tão bonita, essa herança do povo negro. Foi assim que, junto com amigos, criamos o Grupo Mãe Ana, que segue na estrada até hoje, graças a Deus”, relembra.
Hoje, dona Feliz é referência na manifestação e representa o Tocantins em eventos dentro e fora do Estado, levando a suça como expressão de identidade, resistência e pertencimento. Além de mestra suceira, ela também é mãe de cinco filhos biológicos e três filhos do coração.
“Sou mãe de cinco filhos biológicos e mais três que criei, que são filhos do coração. Para mim, não tem diferença. A diferença é que eu não sofri para parir, não passei pela gravidez e não amamentei. Mas, no amor, não existe diferença. São meus filhos de alma, amo todos por igual”, afirma.
Para além da família, ela também é vista por muitos integrantes de sua comunidade como uma referência de cuidado, orientação e ensinamento. Em sua trajetória, maternidade e ancestralidade caminham juntas, como formas de manter viva a herança recebida dos mais velhos.
“A gente sempre traz algo bonito da forma como foi criado pelos nossos pais e avós, e transmite isso para os nossos filhos. Para mim, ancestralidade e a maternidade seguem juntas. A relação delas é muito estreita”, declara.
Ao refletir sobre o Dia das Mães, dona Felisberta declara que ser mãe também exige escuta, presença, humildade e fé. “Neste Dia das Mães, a minha mensagem é que a gente saiba ser mãe. Uma mãe que dialoga, que conversa, que aconselha e que não se coloca em um pedestal. Para criar bem um filho, é preciso descer até o nível dele: cantar, sentar no chão, brincar, conversar e ouvir suas histórias. Quando eles crescem, é preciso saber orientar. Mãe é parceria, é amor, é compreensão, é luta e resignação. Que a gente saiba ser mãe com o coração. E, sempre que necessário, coloque o joelho no chão, faça uma oração pelo seu filho, peça proteção e entregue à força maior, para que tudo caminhe bem na vida deles”, finaliza.
A relação de Verônica de Albuquerque Tavares com a suça começou no ambiente escolar. Pernambucana de origem, ela se mudou para Natividade, onde atuava como professora de Geografia. Em meio ao trabalho com os alunos, percebeu a necessidade de aproximá-los das manifestações culturais da própria cidade. Foi a partir dessa provocação que Verônica aprofundou seus estudos sobre a dança tradicional de Natividade.
O trabalho com a suça começou na escola, mas eu percebi que ele não podia ficar restrito àquele espaço, porque os alunos se envolviam, se reconheciam e criavam vínculo com a cultura. Quando eles saíam do ensino fundamental, perdiam esse contato. Foi aí que entendi que precisava ampliar, abrir para a comunidade e dar continuidade a esse processo. Comecei a pesquisar, ouvir os mestres, vivenciar a cultura e me encantar profundamente. A suça não entrou na minha vida só como conteúdo, ela me atravessou como identidade, como pertencimento,” relata Verônica.
Como resultado desse trabalho, em 2017 foi criado o Grupo de Suça Tia Benvinda, formado por crianças, adolescentes e jovens da comunidade. Atualmente, a iniciativa é reconhecida como Ponto de Cultura pela Política Nacional Cultura Viva, do Ministério da Cultura.
“Temos, em média, 75 participantes diretos, além de outros que sempre estão chegando ou aguardando vaga. Trabalhar a suça com crianças e adolescentes é algo transformador. A gente não ensina só a dança, a gente trabalha valores, identidade, respeito, disciplina e pertencimento. É um processo de formação humana, cultural e social. É educação patrimonial e antirracista”, completa a professora.
Além de idealizadora e coordenadora do ponto de cultura, Verônica é produtora, ativista cultural e mãe de Letícia, de 12 anos, que desde muito pequena já participa das rodas de suça, ao som dos versos e da batucada dos tambores.
“Letícia é suceira desde que estava na minha barriga. Hoje, com 12 anos, ela já repassa os ensinamentos para as crianças menores que chegam às aulas semanais. Ela e outros veteranos ajudam nesse processo, mostrando como fazer os passos e acolhendo quem está começando”, conta.
O grupo carrega o nome de Tia Benvinda, mulher negra nativitana, guardiã de saberes e grande referência da cultura local. Para Verônica, a atuação com o coletivo também passa pelo cuidado cotidiano, pela escuta e pela construção de vínculos com os participantes.
“É um cuidado diário, um acompanhamento, uma escuta, uns puxões de orelha, se precisar. A gente cria laços, vínculo. Eu me vejo, sim, nesse lugar de cuidado, assim como muitas outras mulheres que fazem parte dessa caminhada. É uma rede de afeto, de proteção e de construção coletiva. Tenho no coletivo integrantes que entraram quando tinham 10, 11 anos e hoje estão com 20, 22, 23 anos, repassando o aprendizado para os mais novos que vão chegando. É o saber circular”, afirma.
Os encontros do Grupo de Suça Tia Benvinda são realizados às quintas-feiras, em frente às ruínas da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no centro histórico de Natividade.
Neste Dia das Mães, as trajetórias de dona Felisberta e Verônica simbolizam o papel de tantas mulheres que fazem da cultura um gesto de cuidado, formação e continuidade. São mães que ensinam com a palavra, com o corpo, com a memória e com a presença, ajudando a preservar as raízes que sustentam a identidade cultural do Tocantins.
Informações: Karla Rayane/Governo do Tocantins